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  • Suspensão dos EUA reacende debate sobre vacinação obrigatória contra aftosa

  • Data: 26/06/2017
  • Fonte: http://revistagloborural.globo.com/Noticias/Criacao/Boi/noticia/2017/06/suspensao-dos-eua-reacende-debate-sobre-vacinacao-obrigatoria-contra-aftosa.html
  • Suspensão dos EUA reacende debate sobre vacinação obrigatória contra aftosa
  • Foi a crônica de uma morte anunciada.” A obra do escritor colombiano Gabriel García Márquez foi lembrada por Sebastião Costa Guedes, presidente do Grupo Interamericano para Erradicação da Febre Aftosa, para explicar a suspensão das importações de carne bovina fresca por parte dos EUA.

    Os americanos alegaram que a inspeção dos lotes de carne do Brasil revelou um índice muito superior de não conformidade às normas do país. O governo brasileiro explicou que a situação teria a ver com o encontro de abcessos provocados por reação de animais à vacina contra a febre aftosa.

    “Ao longo dos últimos anos, realizamos várias reuniões com representantes das indústrias produtoras alertando acerca do perigo que representa a vacinação. Nós defendemos a retirada da vacinação e agora o governo também adotou essa posição”, diz Guedes. “As reuniões foram infrutíferas”.

    Segundo Guedes, o alerta foi dado por conta da própria composição da vacina, que é oleosa e pode contaminar. “Somos contrários à própria maneira de aplicá-la no animal. Por exemplo, a via intramuscular em vez da aplicação subcutânea”, afirma.

    Ele explica que a medicação subcutânea é feita abaixo da pele, enquanto a intramuscular é aplicada em áreas de grandes massas musculares. Guedes argumenta também que as empresas deveriam e devem efetuar um serviço de extensão rural maior e mais efetivo.

    “Achamos também que os testes com vacinas deveriam ser feitos em um período de 60 dias antes da vacinação. O teste é efetuado 28 dias antes”, explica.

    Médico veterinário, Sebastião Guedes lembra também que a febre aftosa é controlada no Brasil. “Oito Estados estão sem a ocorrência da doença há mais de duas décadas, o que representa em torno de 94 milhões de cabeças, 13 Estados estão sem o foco da doença entre 15 e 20 anos, representando 65 milhões de cabeças”, ressalta.

    “Por fim, outros quatro estão sem aftosa entre 10 e 15 anos, o equivalente a cerca de 53 milhões de cabeças”, diz. É quase o rebanho total do Brasil.

    Novos medicamentos

    A tecnologia vem melhorando, argumenta o vice-presidente executivo do Sindicato Nacional da Indústria de Produtos para a Saúde Animal (Sindan). Emilio Salani questiona a responsabilidade atribuída à vacina para a suspensão da carne bovina brasileira pelos Estados Unidos. Culpar só a imunização não tem fundamento, diz ele.

    “Tem toda uma cadeia produtiva. Não estou dizendo que não houve nada errado. Mas tem que investigar para prestar a informação correta. Não pode acusar antes de verificar”, argumenta o representante da indústria veterinária, lembrando que todo o material fabricado é inspecionado pela própria indústria e o Ministério da Agricultura.

    Para o professor aposentado da Unicamp (SP) Pedro de Felício, a desossa dos animais também deveria ser trabalhada com muita atenção, já que a carne vai ser moída nos Estados Unidos. “A Austrália exporta a carne em cubos e nunca teve problemas.”

    Felício apoia a ideia de que a dosagem da vacina seja reduzida de 5 ml para 2 ml por aplicação.

    Além da questão sanitária

    Logo depois do anúncio do Departamento de Agricultura dos Estados Unidos, o ministro da Agricultura, Blairo Maggi, prometeu lutar pela reabertura do mercado norte-americano. Em mensagens divulgadas por redes sociais, ele informou que vai aos Estados Unidos discutir o assunto pessoalmente com as autoridades do país.

    Para ele, a motivação do USDA pode ter ido além da sanidade. Ao se pronunciar sobre o assunto, Blairo Maggi afirmou que produtores locais pressionam por embargos. E lembrou que os norte-americanos são clientes, mas são um importante concorrente do Brasil no mercado global de carne bovina. Recentemente, aliás, eles fecharam um acordo de exportação do produto para a China, uma abertura ocorrida depois de 14 anos e vinda de um mercado para onde o Brasil já exportava.

    Não é incomum um governo sofrer a pressão de produtores ou indústria local quando estes se veem incomodados por um concorrente externo. Isso também não é restrito à pecuária. Um exemplo atual, no Brasil, é o da indústria de açúcar e etanol, que cobra a imposição de tarifa contra a importação do combustível feito de milho pelos Estados Unidos.

    “É o jogo do mercado”, comenta Alcides Torres, sócio da Scot Consultoria, com larga experiência em questões relacionadas ao mercado de carne. “Nos Estados Unidos, os lobbies do setor agrícola são muito fortes e tem esse fator comercial de uma medida como essa”, acrescenta.

    No caso da carne bovina, pecuaristas norte-americanos não escondem sua insatisfação com a presença da carne brasileira. Em carta enviada a autoridades do país no início de junho, por ocasião do caso JBS, a R-Calf USA, associação com sede no Estado de Montana, defendeu o fechamento do mercado para o Brasil.

    “Por que os Estados Unidos não fecharam suas fronteiras para a carne bovina brasileira, assim como outros importantes importadores fizeram, quando foi informado em março de 2017 que plantas de abate do Brasil estavam envolvidas em corrupção?”, questiona o texto, em referência à Operação Carne Fraca, feita pela Polícia Federal.

    Tão logo a investigação veio à tona, cerca de 40 países anunciaram suspensão ou restrição de importações de carne brasileira. O que demandou uma ação capitaneada pelo próprio ministro Blairo Maggi, para prestar esclarecimentos e promover a normalização dos mercados.

    Na época, o chefe do Departamento de Agricultura dos Estados Unidos, Sonny Perdue, descartou suspender as importações do Brasil. Poderia provocar retaliação. O que ocorreu foi um reforço na inspeção, iniciado ainda em março e usado como causa da medida adotada agora.

    “O secretário já deveria ter bloqueado e continuado a bloquear a carne brasileira até que fosse estabelecida a confiança”, reforça o executivo chefe da R-Calf USA, Bill Bullard, em entrevista à Globo Rural concedida antes do anúncio das novas sanções do governo dos Estados Unidos.

    Na classe política, a repercussão também foi positiva. “Republicano conservador” do Texas, Estado americano relevante na pecuária, o presidente da Comissão de Agricultura da Câmara dos Representantes, Michael Conaway, se disse agradecido pela decisão do USDA.

    “A suspensão das importações foi uma medida apropriada e necessária enquanto as autoridades brasileiras trabalham para avaliar e corrigir a situação, e dão aos Estados Unidos tempo para um melhor entendimento da magnitude do problema”, diz o parlamentar, em nota.

    Embora indesejado, o impacto da suspensão sobre o faturamento da indústria brasileira de carne deve ser relativamente pequeno. Alcides Torres, da Scot Consultoria, lembra que a representatividade das vendas da carne in natura para os Estados Unidos ainda não é tão grande. E as exportações da enlatada não foram sancionadas.

    Existe, sim, a possibilidade de outros compradores pressionarem para pagar preços menores pelo produto nacional. No entanto, o efeito principal, talvez, seja burocrático, já que padrões norte-americanos servem de referência para outros países, lembra Alcides Torres.

    “Nosso anseio de exportar para mercados como Japão e Coreia do Sul, por exemplo, terá que ser adiado. Em outros países para onde o Brasil exporta, o efeito deve ser mais burocrático, com pedidos de esclarecimento”, pondera.

    Se a suspensão da carne bovina brasileira tem fundo comercial ou não, o fato é que houve um problema e que deve ser resolvido, argumenta Torres. Mas ele considera a situação menos preocupante, por exemplo, que a causada pela operação Carne Fraca. E acredita que a solução será mais rápida que a adotada depois da ação da Polícia Federal.

    Pedro de Felício, da Unicamp (SP), pensa de forma semelhante. Para ele, o problema que causou a sanção dos norte-americanos não deveria ter acontecido. Mas, já que aconteceu, o Brasil tem que fazer a sua “lição de casa” para resolver a situação. “Os Estados Unidos fazem a avaliação dentro dos seus critérios”, diz. “Acho que não haverá estrondo internacional. A solução é técnica, não política”, acrescenta o professor.

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